ISBN: 972-8115-53-9
Data: 2000
Pp.: 62
PVP: € 8.4
Preço Online: € 7.56
 

 
 

Persona
ficções

Pitta, Eduardo

Sobre o livro

Persona é a primeira incursão de Eduardo Pitta no domínio da ficção. A obra é composta por três narrativas curtas - Marylin, Kalahari e Pesadelo -, a última das quais merecerá, pela sua extensão, a designação de novela. Nas suas breves 60 páginas, Persona é um acontecimento na literatura portuguesa, na medida em que integra, na companhia talvez de A Sombra dos Dias, de Guilherme de Melo, e Lunário, de Al Berto, a tríade mais notável da nossa escrita gay. A singularidade absoluta desta obra nas letras portuguesas deriva da forma como articula o universo colonial moçambicano com a prática de uma identidade gay que faz do homossexual um epítome da decadência do império, numa premeditada atitude de cinismo social que acaba por fazer dele uma figura crítica. A explicitude da linguagem, o desassombro na revelação do lado oculto da guerra colonial, surgem aqui despojados de qualquer retórica reivindicativa ou heróica, a qual é terapeuticamente substituída pelo duche frio de um olhar não disponível para se enredar nas armadilhas da nostalgia amorosa, sexual ou colonial. 

Eis
porque e como esta obra introduz na situação pós-colonial da nossa literatura a questão abrasiva da possibilidade de uma literatura colonial crítica, sendo essa crítica contudo não o produto de uma perspectiva política, como seria esperável, mas sexual. Ou melhor: de uma política sexual que perturba e desarranja os quadros mais reconhecíveis quer da literatura colonial quer da pós-colonial.

 

Para resumir e concluir, diga-se que em Personaabuso (Marilyn), identidade gay (Kalahari) e arbítrio de poder (Pesadelo). Mais guerra colonial e borrasca imperial.

 

Recensões

Eduardo Pitta, poeta e crítico assíduo de poesia, acaba de publicar o seu primeiro livro de ficção. Para quem teve oportunidade de ler a sua recente antologia poética, Marcas de Água, digamos que o encontro com este livro de contos regista uma deslocação assinalável da sua escrita. Das Marcas passamos agora para a esfera da Persona, título do livro em análise. Tal deslocação tem um manifesto interesse crítico, precisamente porque implicou a narrativização do sujeito e, com ela, uma maior legibilidade das Marcas que os livros anteriores exibiam nos interstícios dos versos. Com esta mutação, a escrita gay encontra em Portugal uma voz audível como não tinha tido até aqui. Aliás, poder-se-ia ver neste livro o sintoma da emergência mais ou menos consistente de uma cultura pública gay entre nós [...] 

A
primeira impressão que se tem ao ler Persona é a de uma reactivação de experiências de leitura de algum património «moral» do séc. XVIII, até porqueentre eles marcas de género, digamos assim: ritmo acelerado, narrador autoritário, pathos autobiográfico e sobredeterminação da pulsão erótica [...] 

Assim, o dicionário gay tem momentos deveras virtuosos, como naquela «mamada digna de um tory», antes de «o comer à canzana, com muito cuspo e nenhuma benevolência». Do mesmo modo, a viagem de ida e volta facilita a celebração da escrita gay, seja ela de Joe Orton ou de John Rechy [...] a sua pátria é sobretudo uma pátria sexual. É esta que imprime as Marcas mais profundas à letra da sua Persona.


Fernando Matos Oliveira, Ciberkiosk, 2001, e revista Colóquio-Letras, nº 161-162, Lisboa, 2002.

 

 

Designado pelo autor como «contos morais», Persona constitui o primeiro texto de ficção em prosa de Eduardo Pitta, poeta sobejamente conhecido e crítico literário da revista LER. Pensamos ter havido por parte do autor o estabelecimento de uma relação intencional, de carácter semântico, entre o título do livro e a qualificação dos contos [...] Assim, se bem interpretamos, Eduardo Pitta provoca-se a si próprio enquanto autor-narrador, evidenciando uma realidade social a que não permanece alheio, e provoca o leitor a deixar cair a «máscara» da normalidade social e a aceitar o conteúdo explicitamente homossexual dos contos [...] 

De uma linguagem crua, subvertora da «normalidade» mas fortemente realista, dotado de um léxico que combina tiques da alta-burguesia colonial com expressões do machismo militar, enquadrando uma espécie de iniciação social e sexual de Afonso, Persona vem assumir-se, no actual panorama literário nacional, como uma forma de triunfo do recalcado, ou seja, como uma libertação sem pudor moral da vertente gay da literatura [...] É, evidentemente, por estes motivos, um livro para a História [...] Eduardo Pitta veio finalmente libertar o «tio Ângelo» 57 anos depois da publicação de Mau Tempo no Canal [...] Finalmente, este livro de Eduardo Pitta, de um modo explícito a partir do conto «Pesadelo» [...] vem também trazer uma vertente nova que faltava à literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial.


Miguel Real, Jornal de Letras, Lisboa, 2001.

 

 

Persona [...] foi louvado como um acto corajoso [...] Persona, enquanto texto literário, é insólito, original, de grande qualidade literária, onde o tema das diferenças vai muito além do meramente sexual. Constitui-se de facto como um pequeno romance na medida em que cada um dos contos tem por herói a personagem de Afonso, apanhada em três momentos-chave da sua vida: aos 12, aos 18 e aos 22 anos. A cada idade corresponde a narrativa de uma forma de iniciação. Três etapas de um caminho em direcção à maturidade marcadas pelos encontros, pelos espaços: a escola, uma viagem ao deserto, a vida de guerreiro. Trata-se de um percurso de crescimento e, apesar da brevidade, os episódios revelam-no como a versão moderna de uma educação sentimental. O herói move-se na alta-burguesia, retrata-lhe os tiques e os podres, o discurso tanto mais elegante quanto escabroso, reproduz a snobeira de um distanciamento muito «british» [...] Não percam.


Helena Barbas, Cartaz, Expresso, Lisboa, 2002.

 

 

I want to insist on this point, so I make it at the very start so we can get on with other things: like the excellence, the sharpness and the interest of Eduardo Pitta's impressive first fiction, Persona. But Pitta's stories concern men who fancy men, their networks, their meetings, their context, so they are presented as «gay» fiction and we are invited to consider a «gay» canon. This is said to be of historic interest in Portugal [...] 

What Pitta does, with economy and power, is exactly that: although we might prefer a more polite version, since his colonial soldiers have a lifestyle out of
social columns and are not the petty thieves and turncoats of Genet's fantasy. You have to be Afonso for the duration, suspected at school in Mozambique of being a queer (and exploited by the doctor inquisitor who fancies a blowjob); finding possibilities in the unlikely context of the Kalahari; ending up not quite a political prisoner during the colonial wars, a soldier whose sexuality makes him either a security risk or just like all the other bichas in the barracks [...] 

This means that Pitta can write about queers, and men who fancy men, in a failing colony, without tumbling into the
nonsense of associating homosexuality with some sort of imperial decadence (it was queers like Cecil Rhodes who built the British Empire, and no doubt there are queers like Cecil Rhodes waiting to be discovered among the founders of the Portuguese....). By transcending the simple subject of «being gay», Pitta finds his own particular subject and he's not answerable for any programmatic reading from some homophobic ignoramus [...] However, Pitta's Afonso is a reader. He goes out to buy John Rechy's book Numbers, recommends to his rugby-playing buddy Rechy's earlier book City of Night. Both approve the sense of ritual and choreography in Rechy's descriptions of the sexual hunt, are interested by the notion that a closeted homosexual is like a black who straightens his hair and tries to pass: which seems a little perverse [...] 

And I admire these stories of Eduardo Pitta, because they
are about snobbery, travelling, the odd tensions of a failing colony, the end of an empire; and yet they are far more than their subject. They are also about the odd knowingness that comes to gay men quite young, because we can see the world has to be calculated into shape. But they are not propaganda or pornography or sociology or anthropology or history. They are fiction, good fiction, and welcome in themselves.


Michael Pye, Ciberkiosk, 2001.

Persona é nome de livro [...] Três prosas de diferente extensão, confundindo-se numa, numa zona, formando um universo. O enigma poético filtra a homossexualidade latente, factual, ressuscitando a memória dos pequenos infernos, evocando África, mais exactamente os últimos momentos de Moçambique colonial e Lourenço Marques branco. O seu autor é poeta [...] de nome Eduardo Pitta. Desde então, o poeta sabe a cifra da escrita, rara e original; porém, nem sempre quer ajudar a decifrá-la. Claro, leia Persona quem quiser e quem puder, mas não se fique pelo meio quem gostar pelo menos de uma página: creio que o delgado livro, independentemente de todos os possíveis juízos de valores, pode tornar-se, num dia próximo, um objecto de culto.

Jorge Listopad, Jornal de Letras, Lisboa, 2001.

 

 

 
 
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