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Século de Ouro Serra, Pedro; Silvestre, Osvaldo Manuel Sobre o livro
Um consenso crítico persistente vem caracterizando o século XX como o Século de Ouro da poesia portuguesa. Século de Ouro é a resposta, em forma de livro, a esse juízo, reunindo 73 poemas de 47 poetas escolhidos e lidos por 73 ensaístas.
Trata-se, pois, de dois livros num: uma antologia poética – a mais ambiciosa feita até ao momento sobre o século XX português – e uma colectânea de ensaios, também ela ambiciosa e, a esta escala, nunca feita.
Situado no momento-charneira em que o século XX não acaba mas recomeça, Século de Ouro é uma antologia que se perfila como o lugar crítico onde se questiona o próprio consenso em torno dessa idade áurea da poesia portuguesa. Leia uma breve entrevista com Pedro; Silvestre Serra. Recensões
Problema recorrente: como dispor os poemas que integram uma antologia? A regra é o consenso, cujas soluções passam quase sempre pela ordem alfabética, pela sequência cronológica ou pelos períodos estético-literários. Os organizadores de Século de Ouro não temeram, porém, as opções arriscadas (porque polémicas) e escolheram um método de sequências aleatórias, elaborado através de um programa informático, mais precisamente, um script de Matlab. Estranho? Nem por isso, se se considerar que se trata de uma obra ela própria apresentada como sendo a «mais ambiciosa que sobre a poesia portuguesa do século passado foi até ao momento elaborada». (…)
Não se espere que Século de Ouro respeite os cânones tradicionais. É, aliás, na própria introdução, intitulada «Desaprender (com) a História», que se afastam eventuais expectativas sobre o assunto: «E inútil procurar nestas centenas de páginas uma História da Poesia Portuguesa do Século XX, pois tal não esteve nunca nas cogitações dos seus organizadores ou dos ensaístas que fizeram esta antologia». (…)
Além de uma simples antologia de poemas, este volume monumental (…) constitui também um grande trabalho de cariz ensaístico sobre a poesia portuguesa do século XX. Dois livros num só. Ou, como nele se propõe, tantos quantos as leituras de quem o ler o determinarem, à maneira de Bernardo Soares n’ O Livro do Desassossego (só que, neste caso, com a «pequena» ajuda dos vários índices disponíveis no final da obra). O reino do acaso, pleno de subjectividades.
Sara Belo Luís, «O Livro do Desassossego», Visão, 21 de Novembro de 2002
Século de Ouro é uma antologia crítica (Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, diz o subtítulo) porque, sabendo que não pode conquistar um lugar supratemporal e apoderar-se da imagem histórica «autêntica», escolhe fazer um relato minucioso da perspectiva que adoptou nesse campo de batalha, de como teve de abdicar da atitude contemplativa típica do historicismo e do elemento épico da história a favor de uma laboriosa construção. (…)
Comecemos por uma função definida pela negativa: a antologia não pretende estabelecer um cânone e tenta desviar-se, pelo seu programa crítico, dos mecanismos que desempenham um papel no processo complexo de canonização. Isto não irá certamente evitar que ela seja julgada pelas inclusões e pelas exclusões. (…) Esperemos, no entanto, que a discussão não se fique por esse nível primeiro, o qual impõe a pergunta seguinte: mas então a antologia não se defende das críticas baseadas nesse critério, desde logo por dissolver a autoria numa entidade colectiva? Não completamente, porque é possível perceber que a selecção de um único poema entre os três que cada crítico escolheu é uma decisão autoral dos organizadores bastante importante. Se não tivermos em conta essa mão invisível (e cujo papel os organizadores, na introdução, não omitem mas relativizam bastante), dificilmente podemos conceber que o resultado final tenha sido este. Esta antologia, apesar do esforço em contrário, não é plausível senão admitindo a instância do autor a que se quer subtrair. (…)
Uma última aporia: uma «idade de ouro» supõe evidentemente um substrato mítico-narrativo da história. Ora, o modelo de temporalidade histórica que esta antologia tenta elaborar, no seu complexo programa, implica a ideia burckhardtiana de que é impossível constituir uma unidade de sentido ao nível empírico-conceptual das épocas particulares.
António Guerreiro, «Campo de Batalha», Expresso/Cartaz, 23 de Novembro de 2002
A obra pretende ser, como resulta do seu subtítulo, uma «Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX»: objectivo não conseguido, pois não parece que este alentado volume dê um panorama minimamente coerente e significativo do que foi, de facto, um «século de ouro» da poesia portuguesa. Os comentários críticos acabam, aliás, por ter mais presença, até em espaço, e relevância, do que os próprios versos. De tal modo que se trata mais de uma antologia de ensaístas, críticos e docentes universitários do século XX que escrevem sobre poesia e aqui escolhem o seu poema preferido, ou o poema sobre o qual entenderam ter mais coisas a dizer. E, a essa luz, há textos magníficos, como – para só citar cinco, a título apenas exemplificativo, sem querer fazer qualquer hierarquização valorativa – os de Eduardo Lourenço, sobre «Em louvor do vento» de Ruy Belo, Carlos Reis, sobre «As palavras» de Eugénio de Andrade, Roberto Vecchi, sobre «Pátria» de Sophia, Fernando Pinto do Amaral, sobre «Canção do ano 86» de Fernando Assis Pacheco, Paula Morão, sobre «Outro dia» de Irene Lisboa.
Na Introdução, de 50 páginas, «Desaprender (com) a História», OMS e PS, explicam os critérios da obra, fazem análises e dão opiniões sobre a poesia do período em apreço, salientando que «é inútil procurar nestas centenas de páginas uma História da Poesia Portuguesa do Século XX, pois tal nunca esteve nas cogitações dos seus organizadores (…)». O que é exacto e perfeitamente claro, ao contrário do que acontece com outras partes do mesmo texto. Como, por exemplo, e prescindindo de qualquer comentário:
«Este livro poderia aliás suscitar reflexões sobre a natureza, devir e alcance dos ‘consensos’, quando estejam em causa obras de arte. Numa primeira abordagem, dir-se-ia que o livro é pensável, e terá talvez sido pensado, como um tropo do consenso: a partir do momento em que se delega numa assembleia alargada de Grandes Eleitores a escolha do corpus poemático do século XX português, tudo parece apontar para uma decisão legitimada pelos princípios da democracia representativa e, a esse título, dispondo de força de lei. Este corpus, digamo-lo assim, pela própria natureza selectiva do género antológico, coincidiria com um cânone: o cânone da poesia portuguesa do século XX.»
José Carlos de Vasconcelos, JL, 27 de Novembro de 2002
Se contarmos, como deve ser, frente e verso de todas as páginas impressas da grande «Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX», agora vinda a lume, e que leva como título Século de Ouro, então este livro grande – mas que pretende tudo menos ser um grande livro – tem exactamente 666 páginas. É inevitável a associação com o ominoso número da besta do Apocalipse, e aqueles que acreditam que nada acontece por acaso neste mundo perguntar-se-ão logo: que ilações tirar desta evidência?
Por mim, fui ao livro. Mais exactamente, aos livros, que me pus a ler ou a reler: o próprio Século de Ouro, e sobretudo o seu iluminado prefácio; e o «Apocalipse» de S. João. (…)
Tal como o «Livro da Revelação», a antiantologia que Osvaldo Silvestre e Pedro Serra, com a colaboração de 73 críticos e ensaístas, puseram de pé não é um livro sobre o que há-de vir (ou o que foi), mas antes sobre o que é. O livro chamado do Apocalipse é sobretudo revelador de um estado de coisas permanente que tem sido o da história humana. O Século de Ouro, por seu lado, é altamente revelador, não tanto do que foi ou pode vir a ser a poesia portuguesa nossa contemporânea – o livro faz o que pode, e bem, para não se deixar enredar em pontos de vista judicativos ou canónicos sobre uma qualquer história da poesia portuguesa do último século -, mas sobretudo de uma consciência histórica dessa poesia, que é o espelho em que nos revemos nós, hoje, seleccionando-a e lendo-a de forma parcial e conscientemente – inevitavelmente - «tendenciosa». Também o Livro do Apóstolo lá diz já claramente: «O que vês [não o que viste], escreve-o num livro». Disso dá bem conta a escolha dos críticos e sobretudo o prefácio dos organizadores, uma peça exemplar do género, pelo sólido esteio teórico, pela clarividência crítica e a clareza informativa que revela.
João Barrento, «666», Público / Mil Folhas, 7 de Dezembro de 2002
Em poesia, como não atentar nesse monumento que é Século de Ouro.Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX (…)?
Marcelo Rebelo de Sousa, «Natal… com Livros», Os Meus Livros, Dezembro 2002
Ao finalizar o ano de 2002 surge-nos no panorama editorial português uma obra que há muito fazia falta a leitores de poesia, e não só. Com organização de Osvaldo Manuel Silvestre e de Pedro Serra, este Século de Ouro – Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX – consegue trazer reunidas as vozes mais importantes da poesia do século XX português, acrescentando-lhe (à poesia) as vozes mais importantes também da crítica de poesia. Tratar-se-á, por esse facto, de dois livros num? E porque não? Uma grande antologia de poesia e de textos críticos. E que não se acuse o livro de esquecer esta ou aquela poesia deste ou daquele autor: não é defeito, é feitio próprio de uma antologia que faz não só o balanço, mas a projecção do que poderá ser a poesia portuguesa deste século… Honra seja feita por se lembrarem da «mais relevante colecção de poesia em Portugal na 2ª metade do século XX: o Círculo de Poesia da Moraes Editores.
António Carlos Cortez, Os Meus Livros, Dezembro 2002
Polémica, como todas as antologias, mas imprescindível, Século de Ouro tem critérios diferenciadores: os poemas antologiados foram escolhidos não pelos organizadores (…) mas por 73 ensaístas. O resultado da escolha deu em 73 poemas e 47 poetas. Este volume reúne, pois, dois em um: uma antologia poética e uma colectânea de ensaios. Sendo de uma qualidade gráfica excepcional, tem ainda como característica a não sucessão cronológica dos poemas, mas sim a opção por uma disposição aleatória, sendo possível ler, de algum modo, nesta obra, a «história» da poesia novecentista. Mais desresponsabilizadora em relação às ausências, há-as, é claro, como as de Torga – em 2003, Coimbra é capital da cultura -, de Natália (…). Mais de 30.
Ana Marques Gastão, «Ouro do Século em 73 Poemas», Diário de Notícias, 27 de Dezembro de 2002
O ingente Século de Ouro produziu um leque de visões e feroz polémica.
Francisco Belard, «Algumas Tendências», Expresso / Cartaz, 4 de Janeiro de 2003
Portentoso, fundamental, magnífico, irritante, imprescindível.
Frederico Lourenço, Mil Folhas / Público, 4 de Janeiro de 2003
Juntamente com «Rosa do Mundo», que saiu em 2001, faz-me pensar que já começamos a ter grandes antologias de referência. Fazia falta e parece-me bastante interessante, não só do ponto de vista dos poemas escolhidos, como também dos textos críticos que os acompanham.
José Luís Peixoto, Mil Folhas / Público, 4 de Janeiro de 2003
Não me fica muito bem falar nele porque fui lá incluído. Mas penso que é um empreendimento de uma importância fora de série.
Vasco Graça Moura, Mil Folhas / Público, 4 de Janeiro de 2003
Século de Ouro — Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX (…) nasceu de projecto invulgar. Tão invulgar, que vem causando embaraços e se presta a meio auxiliar de diagnóstico do estado da crítica portuguesa. Nas referências que mereceu na imprensa, aliás escassíssimas, ninguém, ou quase, resistiu a enumerar os poetas ausentes e a sugerir que alguns ali estão indevidamente. O director do JL, por exemplo, em nota a vários títulos aquém das exigências da crítica (minimamente) competente, alargava-se na enumeração de uns e outros a fim de comprovar que «não parece que este alentado volume dê um panorama minimamente coerente e significativo do que foi, de facto um ‘século de ouro’ da poesia portuguesa». Daí o juízo que declina, inexorável: o objectivo enunciado no subtítulo, antologia crítica da poesia portuguesa do século xx, não foi conseguido. Fica, pois, para uso dos vindouros, a definição de antologia crítica na percuciente perífrase: «panorama minimamente coerente e significativo». Já se viram descrições menos verosímeis (até minimamente verosímeis) e não menos triunfantes (ou minimamente significativas). (…)
Até Eduardo Prado Coelho, infatigável recenseador de novidades, teve perante o Século de Ouro descuido neoclássico: no inventário de 2002, classificou-o «projecto forçosamente desequilibrado, mas obviamente interessante»; a adversativa sugere que o desequilíbrio é defeito, do mesmo passo que o advérbio «forçosamente» parece supô-lo constitutivo e intencional. Ou o «interessante» seria nada óbvio, por afinal surgir apesar do desígnio avesso ao padrão de equilíbrio, ou o óbvio interesse derivaria da não menos deliberada renúncia a tal padrão, caso em que a menção sumária do desequilíbrio criticamente não se justifica. (…)
O projecto de reunir algumas dezenas de críticos que escolham um poema e sobre ele escrevam privilegiando a close reading significa, portanto, pedir a muitos que façam o que nunca fizeram, e pedir a todos que elejam o texto a que se vão submeter. (…) Seria curioso, talvez necessário, examinar o que alguns fazem em vez de close reading, o que alguns fazem supondo que é close reading, ou até o que outros fazem não querendo saber de close reading. Mas esse escrutínio aqui não cabe (sequer minimamente). Fico-me por realçar e louvar o projecto dos organizadores, quando convocaram críticos de diversas gerações e formações à letra do poema, à dilucidação da letra do poema: temerário, porque delineado à vista de riscos óbvios, mas maximamente coerente, por não haver outro meio de constituir uma antologia crítica. A regra da close reading é a única que permite estruturar a antologia enquanto antologia de poemas; é também a única que faz dela uma antologia de ensaios críticos. Ambas sem precedentes, sobretudo em virtude do primeiro traço que distingue o Século de Ouro, o nexo que liga o poema ao ensaio crítico. Esse já é o primeiro grande triunfo: os organizadores disseram a cada um o que a crítica deve fazer, e cada um respondeu mostrando o que sabe fazer. Enfim… minimamente.
PS
Reacção singular foi o manifesto dos deputados de Coimbra, divulgado em finais de Fevereiro, já depois de escrito este texto. Arriscaria a seriedade da crónica se me referisse ao respectivo conteúdo; mas ficava mal à coerência da mesma não dizer que foi grave incorporarem-se dez cidadãos em manifesto invocando expressamente o estatuto de deputados e uma suposta qualidade de «representantes do interesse nacional» — para se pronunciarem em matéria de crítica literária! Se dois estudiosos não podem levar a cabo um trabalho crítico, que ademais mobilizou sete dezenas de especialistas, sem se sujeitarem à acusação absurda de que ultrajaram «Coimbra, o país e a cultura portuguesa», deve concluir-se que os dez deputados autoritariamente confundem a própria ideia de poesia portuguesa com o «interesse nacional» e sobrepõem-na à liberdade de estudo, de crítica e de publicação. Ou então foi vulgar estupidez.
Abel Barros Baptista, «A Letra do Ouro», LER, 2002
(…) esta publicação levantou em alguns espíritos sérias ou pouco sérias perplexidades. A perplexidade maior consistiria talvez em saber porque é que ao processo que se diria democrático da escolha dos poemas – feito pelos críticos – não correspondeu um processo igualmente democrático quanto à escolha dos críticos. Isto quer dizer que a escolha dos críticos não foi feita aleatoriamente, pois obedeceu, sem dúvida, ao critério dos organizadores da antologia; a escolha que cada crítico fez dos poemas certamente que o não foi também; mas o resultado é, na realidade, aleatório se considerarmos a selecção no seu conjunto. Porquê? Porque só um acerto entre os críticos e os organizadores quanto a inclusões e exclusões poderia contribuir para a constituição de um corpus suficientemente estruturado sob o ponto de vista historio e estético, capaz de representar o tal século de ouro. O resultado final não seria possivelmente muito diferente, mas, sem dúvida, seria diferente.
Claro está que o autor destas linhas não está preocupado em dizer quais são os autores que faltam ou estão a mais, dado que a metodologia adoptada – exposta na introdução – retira sentido à questão das presenças ou ausências, pois umas e outras dependem de uma escolha de cada um dos críticos em questão, tendo em vista a sua abordagem crítica.
Fernando Guimarães, «Antologias, Inquéritos e Dicionários», JL, 5 de Março de 2003
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