Decorridas mais de três décadas sobre a queda do Estado Novo, as lutas estudantis travadas contra o regime de Salazar e Marcelo Caetano continuam a dispor de um lugar relevante na memória colectiva. Partindo do caso concreto de Coimbra, A Tradição da Contestação aborda a dissidência política e cultural que atravessa as universidades entre 1956 e 1974, focalizando a análise no período marcelista. Durante estes anos, um vasto processo de politização acentua-se nas práticas e nos discursos estudantis, contribuindo de forma decisiva para a quebra de legitimidade que a ditadura experimenta no seu troço final.
«Miguel Cardina observa um período do movimento estudantil que tem permanecido encoberto pela memória mais divulgada da 'crise académica' de 1969. E fá-lo num trabalho pioneiro, com uma atenção e um rigor absolutamente exemplares». Rui Bebiano
Recensões
Acaba de ser publicado A Tradição da Contestação – Resistência Estudantil em Coimbra no Marcelismo, uma obra de Miguel Cardina, que corresponde, «com alguns acrescentos», à dissertação de mestrado que apresentou em 2005.
Trata-se de um livro notável, a vários níveis.
Se o subtítulo situa a obra na geografia e no tempo, uma contextualização sistemática, e minuciosamente documentada, leva-nos para muito mais longe: não se limita nem a Coimbra, nem ao período de 1968-1974. Por um lado, porque os movimentos estudantis, as suas histórias, lutas e características culturais são bem inseridos no panorama político geral, a nível nacional e internacional, e têm presente a evolução do próprio conceito de juventude e do seu papel. Por outro, porque o autor descreve e explica que é na segunda metade da década de 50 que devem ser procuradas as raízes próximas de todas as contestações e dissidências que se seguem.
Apesar de me interessar especialmente pela problemática e pela época, e de ter vivido grande parte do período em questão no meio universitário, aprendi uma série de coisas que desconhecia ou em que nunca tinha parado para pensar – desmérito meu, talvez, mérito de Miguel Cardina, certamente.
Voltando ao livro: à qualidade do conteúdo, alia-se uma escrita impecável, com a vantagem de ser tão fluente que torna difícil interromper a leitura – quase como se de um romance se tratasse –, o que não é muito corrente em estudos deste tipo e constitui uma mais-valia indiscutível. A título de mero exemplo, anotei a clareza com que são descritos, em poucas páginas (102 a 110), os traços comuns do emaranhado dos «novos radicalismos de inspiração marxista» surgidos nos anos 60.
Miguel Cardina prepara actualmente uma tese de doutoramento sobre a construção da esquerda radical durante o Estado Novo.
Teremos a tese e muito mais. Porque é quase com incrudelidade que se lê que este autor nasceu em 1978.