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Uma Abelha na Chuva Sobre o livro
Com Uma Abelha na Chuva, cuja primeira edição celebra em 2003 meio século, Carlos de Oliveira soma novo romance ao progressivo «encofrar» do mundo nomeado Gândara, caminho em que a narração, agora envolta em demoníaco enxofre, prefigura a alegórica gisandra de Finisterra. Em certo sentido, a obra, várias vezes reescrita entre 1953 e 1969-1971, é ficção que se confessa: despoletada pela conjugalidade alienada de Álvaro Silvestre e Maria dos Prazeres, lemos nela, e nesse reduto familiar polarizado e paralisado entre a cal e o cio, a cifra estética de uma visão crítica sustentada por um «materialismo superior»: representa-se a folie à deux enrijecida, dureza que é também a do exercício do género romanesco, em perda de conteúdo narrável mas lançado como universo auto-suficiente. A esterilidade do casal (dos casais) é o cofre de um irrepetível passado (pessoal e grupal) por cumprir, passado que interpela desde um futuro já não-garantido, provocando uma espera contumaz que acaba sempre por repetir a sua não-consumação. Os ensaios publicados neste volume, avançando por lugares fundamentais da recepção «histórica» do romance e apostando em novas perspectivas de leitura, mostram como a instigação da obra de Carlos de Oliveira, cinquenta anos volvidos, não dá mostras de desfalecer. Leia uma breve entrevista com . Recensões
A complexa relação deste romance com os pressupostos estéticos e ideológicos do neo-realismo fizeram dele um nó duro na história da literatura portuguesa dos últimos 50 anos. Trata-se, pois, de um texto que apela, com carácter de urgência, a uma «revisão», a leituras que procedam a reelaborações interpretativas e despertem para o presente esta obra maior da nossa literatura fazendo-a chegar a outro momento da sua legibilidade. É precisamente o que fazem os colaboradores deste volume, organizado e apresentado por Pedro Serra, estudioso que tem dedicado à obra de Carlos de Oliveira algum do seu labor.
(…) Na impossibilidade de resumir o argumento de cada um, fique pelo menos uma palavra que faça justiça ao volume: ele é uma estação obrigatória da releitura crítica (passe o justificado pleonasmo) do romance de Carlos de Oliveira.
António Guerreiro, in Expresso / Cartaz, 23 de Agosto de 2003 |
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